A ARTE DE SUICIDAR-SE
O torrense Jaa alegriabita o 17. andar. E, com os pés plantados vertiginosamente acima da Rua da Consolação, queria esvoanecer.
Uma multidão embaixolhava o alegre suicida que se altopunha. Fervoravam-lhe vozvozes pela alma estilhaçável.
E Jaa angustiabita a turris aeternitatis.
Nesse instante antes de atirar-se ou recuar-se, Jaa contempla os homens abismomente lá embaixo. Aí sabe a dolorvisão que brilhara em seu olhar.
E Jaa desesperabita o seu olhar sem absolvição.
GRAND HOMMAGE À L'INVENTEUR DU SONNET
Se ouvimos Deus em nosso dia deserto,
inútil conversarmos entre nós, que ouvimos.
Se não (h)ouve Deus em nosso dia inaudível,
é inútil toda conversa, pois não ouvimos.
Converso com meu cachimbo como com um homem
a quem se pudesse falar em silêncio. E
o cachimbo me responde como a um cachimbo.
Terrível prova foi vários dias ver
meus rastos adiante de meus passos.
O ouvido escuta o dia escuro como
a noite que se clareia com os pássaros.
Convivo só com um pequeno fantasma que
diz: convivo só com um pequeno fantasma que
diz conviver só com um pequeno fantasma.
(
A esfera e os dias, Jaa Torrano, 2009, [e] editorial)