terça-feira, 8 de dezembro de 2009



O risco que se corre
O entorno
E
(acreditem se quiserem)
Foi capaz de levantar uma pilha com 9 pratos
-de louça-
Com uma única mão maltrapilha
Intactos por convicção
O interno
O perigo a que me exponho.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Dulcinéia Macabéica

.........................................................................pra Mi, pra Dasho

De tão tímida ria. De si própria, de sua tolice, dos óculos que usava e das pernas tortíssimas. Dos outros também ria. Ria tanto e riso fino. Agudo. Simpático que provoca às vezes compaixão. Que chega a dar pena nos outros. Fora isso não era de amigos, nem entendia o mundo dos outros não sabia essas coisas do mundo que se compartilha. O que sabia firmemente era que gostava de picolé de uva. E da cor rosa sem parar sem parar. Todos os dias da vida alternava entre dois: vestido meia manga de rosa tão-desbotado-quase-branco que só ela, no íntimo do gosto próprio sabia rosa;
e aquele macaquinho de-brim-barato, com rendinhas diversas pelas bordas. Mas quando era criança brincava de bola com os mulekes e se lembrava disso sempre. Pensou que pudesse ser confundida com um muleke e então (vai ver por isso) decidiu gostar de rosa todos os dias que fossem. Fazia porquices diversas que ninguém diria. Escarrava no chão e cultivava caquinhas de nariz. Isso contrastava com as roupas-sempre-rosas e com a risada fininha e com o picolé de uva que ela chupava sem deixar cair uma gota sequer. Ela era um poço de contrastes quando agente olha bem de perto. Além disso o pai e mãe eram muito sérios e estudados. E ela não queria saber de ouvir essas coisas que eles falavam toda hora e sem parar e ela decidiu fingir que não escutava até que ela se mudou para longe e nunca mais telefonou. E nem os pais telefonaram porque eles perderam a paciência com ela. Ela não perdeu a paciência com ninguém, ela nem sabia o que era paciência. Isso que ela nunca teve e que não poderia perder. Ela não vive o mundo que se compartilha. Ela pensa coisas soltas e desafetuosas, ela não sabia nem entendia nada do que era ou poderia ser o que chamavam de afeto. Portanto. É tolice pura: ingênua e desfigurada. E assim se reconhece, quando no quarto seu, às gargalhadas. Mas não-compartilhando tão assiduamente que nada via em si que fosse também dos outros. Nenhum sentimento, nenhuma expressão, nenhuma vontade. Nadica, de pouco em pouco, foi virando outra coisa. Uns dizem que é santa e uns batem o pé: belzebu ele próprio. Mas ninguém viu, ninguém sabe. Pois desde sempre não sentia afeto, nem paixão, nem ódio, nem impaciência, nem paciência. Mas ninguém viu, ninguém sabe. Sentia só vergonha era a coisa única que sentia. Mas depois nem isso. E o próximo passo foi nem sentir fome, nem sede, nem frio, nem produzir cacas no nariz. Por um tempo continuou a chupar picolé de uva, mas só por hábito. Por um tempo sentiu hábito. Depois nem isso. Mas ninguém viu, ninguém sabe. Vai ver que virou um objeto da casa. Uma maçaneta, por exemplo. Vai ver que virou um dos quatro elementos. Mas ninguém nunca viu, nem soube. Ela parou de rir assim, que até parece de repente.

sábado, 5 de dezembro de 2009

August/ Augusto

Desesperado

No alto ressoa um seixo agudo
A noite verte vidro
O tempo estaca
Eu
Cascalho.
Tu
Te
Vidras!

Campo de batalha

Torrões moles afrouxam o ferro
Sangues filtram flocos de limo
Crostas migalham
Carnes lamam
Amamentar estua nos destroços.
Entrematanças
Chispam
Olhos de crianças.

August Stramm, Poemas Estalactites. Tradução: Augusto de Campos. SP: Perspectiva, 2009.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Adolfo Bioy Casares



"Creio que perdemos a imortalidade porque a resistência à morte não evoluiu; os aperfeiçoamentos insistem na primeira idéia, rudimentar: manter vivo todo o corpo. Só deveríamos buscar a conservação do que interessa à consciência" (p.20)

"Estas linhas permanecerão invariáveis, apesar da frouxidão de minhas convicções" (p.26)

"Não esperar nada da vida, para não arriscá-la; dar-se por morto para não morrer" (p.31)

"Não creio que seja indispensável tomar um sonho por realidade, nem a realidade por loucura" (p.64)

A Invenção de Morel. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

domingo, 29 de novembro de 2009


"Era o fim, é o fim, mas o fim é demais também.
Odeeeeeeeeio você"


O assunto é delicado.
Depressa bem depressa
chega ao fim
do cala
Frio se expressa
E penso:
"Nunca mais seremos eu mesma".

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Basta


Nada que não seja apaixonadamente.

Ontem eu disse pr’aquela besta quadrada
eu disse assim pr’ela largar de ser besta eu disse:
“larga de ser besta e vamos estar felizes nós”.
Ontem comprei uma jaca e lembrei
de todos os olhos eu disse logo e lembrei
de largar de ser besta eu
besta eu só(u) sempre.

Ontem, naquela tarde cinzenta, pude decidir
acertadamente sobre todo o meu passado, e agora sei.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009


de mais em mais,
foi querendo coisas tantas.
e nada não basta,
não basta não!

Projeto podólotra ( O percurso e a morte da caminhante anônima)

O gosto do mundo imundo
O gosto do mundo
As papilas gustativas do pé

A masoquista
Filha fiel e arisca
Obedece e seguiu à risca
(E vadia:)
ia, ia, ia.
"Ter os pés sempre no chão"
(O pai é qu'ensina?)
Muito sóbria menina mania
De ter os pés sempre no chão
E ter o (i)mundo a seus pés

Perandante pelos percalços

O gozo do mundo imundo
A dor do imundo
O gozo do mundo
(A masoquista)
O calo no pé cala
A boca do pé gosta
E degusta
Do desgosto

O circuito é circular
Começa no asfalto e termina no mar
E termina no asfalto
E termina e termina no mar
E termina. E termina. E termina.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Homenagem a vossa numinosidade...

A ARTE DE SUICIDAR-SE

O torrense Jaa alegriabita o 17. andar. E, com os pés plantados vertiginosamente acima da Rua da Consolação, queria esvoanecer.
Uma multidão embaixolhava o alegre suicida que se altopunha. Fervoravam-lhe vozvozes pela alma estilhaçável.
E Jaa angustiabita a turris aeternitatis.
Nesse instante antes de atirar-se ou recuar-se, Jaa contempla os homens abismomente lá embaixo. Aí sabe a dolorvisão que brilhara em seu olhar.
E Jaa desesperabita o seu olhar sem absolvição.


GRAND HOMMAGE À L'INVENTEUR DU SONNET

Se ouvimos Deus em nosso dia deserto,
inútil conversarmos entre nós, que ouvimos.
Se não (h)ouve Deus em nosso dia inaudível,
é inútil toda conversa, pois não ouvimos.

Converso com meu cachimbo como com um homem
a quem se pudesse falar em silêncio. E
o cachimbo me responde como a um cachimbo.

Terrível prova foi vários dias ver
meus rastos adiante de meus passos.
O ouvido escuta o dia escuro como
a noite que se clareia com os pássaros.

Convivo só com um pequeno fantasma que
diz: convivo só com um pequeno fantasma que
diz conviver só com um pequeno fantasma.

(A esfera e os dias, Jaa Torrano, 2009, [e] editorial)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009


Acordar semi-nua de sonho ininterrupto.
A água circunda a fronte
dilata o seio
preenche o sexo.
Despertar e perder-se:
Coisa minha, coisa muito própria.
...........***.............
Há bolhas pelo quarto.

terça-feira, 27 de outubro de 2009


Siririca para Kant
-Talvez alguma livre associação do entendimento
Kant, o nome em:
A vida sexual, e
A crítica da razão pura.
Enquanto eu (...), permaneço impura: no superlativo sintético.

(naquela tarde e chuvisco, rondava o surrealismo)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Chico Alvim


LEOPOLDO

Minha namorada cocainômana
me procura nas madrugadas
para dizer que me ama
Fico olhando as olheiras dela
(tão escuras quanto a noite lá fora)
onde escondo minha paixão
Quando nos amamos
peço que me bata
me maltrate fundo
pois amo demais meu amor
e as manhãs empalidecem rápido

(Poemas, SP: Cosac & Naify, 2004)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009


Isso desgasta a gente.
Todo dia isso, todo dia isso.
A gente se vira do avesso e isso
não tem jeito, não (!).
A gente tem vontade de gritar isso bem alto,
(isso de se escangalhar no asfalto).
Aí vem alguém muitíssimo esperto e diz:
vamos logo acabar com tudo isso.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Confissões


* a coisa que eu mais odeio no mundo é dentista.
* a segunda coisa que eu mais odeio no mundo é o motorzinho do dentista.
* a terceira coisa que eu mais odeio no mundo é a anestesia do dentista.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


Você, Bettie Page,
e o rebolado miúdo.
Afinal, o sutian, a calcinha
são pedacinhos pequenos de pano.
São isso só, sabia?! (Deus saberá!)
Enquanto você sorri, Bettie Page,
está tudo bem, tudo está resolvido.
Macarthismo para os sem religião
(isso mesmo: para os sem-compaixão,
para-quem-não-tem-paixão).
Pra você, bela, boa e verdadeira,
o BELO, o BEM e a VERDADE.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Temporal


Era o tempo de elaborar:
Articulações de voz, o timbre.
De passo em passo a caminhada,
Pisar em terra firme.
Tempo era esse o de se manter erecta.
Sujeição às intempéries:
Estar sempre alerta.
- Vontade mesmo era outra.
Fosse o tempo de agora o tempo
D'star fora dos tempos.
- Inundada -
(Em tempos de vir-a-ser, seria sereia/ água-viva/ a estrela do mar)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


Nova, toda ela
Do sorriso ao deboche
Debochada ela toda era
De cinta liga e chicote
***
E (pasmem!) era feliz
Era sim
Tanto era ser meretriz

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Felicidade


......................................................Sei que a dor é a única nobreza
...................................................................................Baudelaire

Éramos tristes. Acordávamos todo o santo dia. Obedecíamos às regras e aos horários e às convenções; lamentávamos. Comíamos pouco e barato. Nenhum presente, nenhum estímulo: A tristeza era o bastante. Tampouco vaidades: a tristeza se encarregava de ditar as últimas tendências: prozac, citalopram, deprax, nortec, fluoxene, verotina, isolamento, psicanálise, terapia lacaniana, junguiana, florais. É claro, nada disso nos fazia felizes (nem era esse o objetivo, "- Deus nos livre!"). Tudo isso era parte essencial do nosso triste ritual. É..., a tristeza nos fazia inocentes. Suspiros e a casa modesta, filhos bem-comportados. Assim seguíamos: tristes e obstinados. Bastante confortáveis nessa triste sina: "- Ah, isso sim é que é vida!". Naquela época, ser triste era comungar. Ameaçava-nos apenas aquela louca e vaga idéia. Mas não sucumbiríamos, ah, não... "- Jamais!". A tristeza era nosso dogma, e com que fervor a defendíamos, afinal, “- Quem sofre tem sempre razão!”. Não percebemos, entretanto. Fervor em excesso, algo não ia bem. É bem verdade: o risco sempre existira, mas talvez a falta de fé, a excessiva autoconfiança... Enfim. Nenhum de nós saberia precisar ao certo. Durante muito tempo fomos insistentes, passávamos dias a cultivar as feridas abertas. Fato foi que aconteceu: triste sorriso, a princípio, de canto de boca. O inevitável, e teríamos de lidar com isso, dar a volta por baixo. Muita coisa se passou até que nos déssemos conta: perderíamos o controle, a coisa parecia contagiosa. E assim foi. Feliz fim aquele, dos nossos saudosos e tristes dias.

domingo, 27 de setembro de 2009

Para os meus


Era uma vez os amigos
vários deles entre si:
tinham (os amigos) essa única convicção.
E tratavam de seguir adiante.
Essas coisas* todas
por tempos que iam
e vinham e iam e vinham.
Havia vidas atadas.
Havia as dores dos amigos.
Seguiam na ausência,
e suportavam.
Se divertiam, os amigos
(também isso: estar os amigos alegres)
Por aí vai, sabe-se.


*Coisas, as dos amigos todos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O honorável sr. Antonio está de volta: www.aparatoestranho.blogspot.com